Efemeridades

22 de junho de 2017

Eu lembro que meu maior medo quando eu era criança era me perder dos meus pais na rua e não achar nunca mais o caminho de casa. Outros medos, como a morte de pessoas queridas, eram simplesmente inimagináveis, porque quando a gente é pequeno os grandes dramas da vida parecem que vão demorar anos para acontecer - ou seja, só vão acontecer quando a gente ficar adulto.

Eis que eu virei adulta.
E já faz 5 anos, de acordo com as regras da maioridade aqui no Brasil.
Os problemas grandiosos da vida? Pois é, eles chegaram. Com tudo.

arte por: kai samuel-davis

A diferença é que eu não posso mais me jogar no chão e berrar, nem deitar na minha cama e chorar o dia todo em posição fetal, afinal preciso ir pro trabalho. Não posso apontar o dedo na cara do professor que foi grosseiro comigo e dizer que vou chamar minha mãe e que ele vai se arrepender. Tenho que resolver tudo sozinha, com base no que acho certo e errado. E eu nem sei o que eu acho certo e errado. 

As coisas foram acontecendo de repente, uma atrás da outra. Umas até passando por cima de outras, transformando todas elas numa enorme bola de neve. Eu assisto a tudo isso completamente perdida. Achei que aos 23 anos eu fosse ter maturidade e equilíbrio emocional suficientes para driblar todas as adversidades, mas como fui ingênua em acreditar nisso. Eu me sinto tão criança como antigamente. 

O fato é que a vida te obriga a ser mais racional. Não importa o quão emotivo você seja, vai ter que aprender na marra. Você termina de colar o band-aid numa ferida, aparece outra.

Minha avó está acamada há dois anos e pra mim isso era o ápice das minhas angústias, porque percebi que eu era adulta e que ela já era idosa antes mesmo de eu nascer. Aceitar isso foi difícil e ainda é, mas a vida não esperou eu digerir essa tristeza porque logo em seguida meu avô também adoeceu. Da noite pro dia. Um dia tava dirigindo e comprando lixas pro pé por 5,99 as quais ele não precisava mas que me obrigou a trazer pra Floripa, porque acha hiper necessário ter uma em casa. No outro, não andava mais.

Acho que o mais doloroso na vida é perceber que tudo é efêmero. A turma da escola se desfaz, os finais de semana na casa de praia acabam porque a casa de praia foi vendida, pessoas que você achava que iam viver pra sempre de repente morrem. Tudo o que era intenso e presente e real e tão forte desaparece e com o tempo perde a força que tinha antes. Tem coisa que aos poucos vai esvaecendo até parecer que nem foi tão importante assim. Algumas a gente simplesmente esquece. 

Tá, tudo parece difícil, mas e aí? Desde que tive consciência de toda essa efemeridade das coisas, comecei a me questionar a respeito do que me motivava a continuar meu caminho. O mundo cai ao nosso redor e a gente junta os caquinhos, tentando não pensar o tempo inteiro nas tristezas para não surtar de vez. Às vezes não tem jeito e a gente desaba, mas um dia ensinaram pra gente que é preciso se erguer novamente a cada tombo. E a gente se ergue, caminha um tempão sabendo que o próximo tombo virá. 

Foi quando hoje, depois de um dia com alguns picos de ansiedade, abri a geladeira pra pegar a sopa que fiz na noite anterior e esquentar. Quando abri o pote, desses tipo tupperware, o cheiro daquela comida me teletransportou, igual aquele personagem de Ratatouille quando prova o prato no restaurante. Lembrei de quando minha vó fazia sopa e levava em potes pra casa dos meus pais. O cheiro foi idêntico. Minha primeira reação foi chorar até a cabeça parecer explodir, porque eu sabia que nunca mais ia comer a sopa dela. A dor veio lá de dentro, deu a volta em mim e me apertou. Depois, a reação mudou. Eu olhei pra sopa, senti o cheiro novamente, coloquei ela na panela, esquentei e comi. Enquanto eu comia, aquelas lembranças pareciam me encorajar. Eu sei que jamais voltarei a sentir a felicidade que era comer a comida que minha vó fazia, mas sei que terei oportunidade pra sentir infinitas outras felicidades. Foi o que esse momento de nostalgia me proporcionou: a certeza de que, se a vida é efêmera, novas coisas virão. A sopa dela não existe mais, mas  eu aprendi a fazer uma muito parecida, que deixou minha noite mais quentinha. 

Eu me apegarei, sentirei cada uma das novas vivências com a maior intensidade possível, porque sou dessas. Tentarei aproveitá-las ao máximo, mesmo sabendo que um dia elas não farão mais parte do meu presente. Quando esse dia chegar, eu vou sentir minhas veias saltarem do corpo e meu coração parar no meio da minha garganta. Vou querer desistir de tudo e me questionar se meu caminho realmente vale a pena.

Deve ser esse o ciclo que a música do Rei Leão mostra. As coisas vem, vão embora e outras surgem. Falar isso da boca pra fora parece clichê e sem graça, mas quando você sente o que isso realmente significa, as coisas ganham sentido. Você agradece - seja lá pra quem for - por ter sentido a alegria de viver o que passou e agradece muito mais por estar forte diante do que acabou. E se ergue novamente. 

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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