Deboísmo é o caralho

26 de julho de 2017

Por muito tempo eu tive medo de falar sobre meus sentimentos, por receio de parecer fraca. Quando eu reclamava ou desabafava sobre alguma coisa, parecia que eu transformava algo pequeno em uma terrível bola de neve. Sentia que eu estava exagerando. Ao mesmo tempo, dar visibilidade ao que antes estava apenas dentro de mim transformava minhas dores e reclamações em coisas menores, insignificantes. Dramáticas. 

Aprendi que o segredo era ficar na minha. Se houvesse algum problema, eu saberia lidar sozinha. Afinal, não foi nada. Nem sei porque estou me preocupando com isso. Vou trabalhar. Peguei o ônibus. Nos fones, Man of War. As coisas são complicadas mesmo. Gente, como isso é difícil de lidar. Sério, tô ficando sufocada. Se eu tivesse falado aquilo, eu queria ver como ela teria reagido. Mas ela provavelmente teria falado outra coisa e eu de certo diria que não. Pera, por que eu ainda estou pensando nisso? Não era pra eu estar sequer refletindo sobre esse assunto de novo. Já deu. Superei. Mas cara, eu realmente não entendo...

A gente não é incentivado a lidar com os problemas. Não temos coragem de olhar para eles, encarar mesmo, sabe? A gente sente culpa pelo simples fato de pensar neles. Imagina só falar sobre eles. Bater de frente. 

Somos tratados como seres humanos programados para saber lidar com todas as adversidades da vida. Não importa se foi meu pão que caiu no chão com a manteiga pra baixo ou se eu me aborreci com o que meu amigo me disse. "Segue o baile", eles dizem. 

arte: folk goth

Deixar de falar sobre as coisas nos dá a falsa sensação de que elas simplesmente deixaram de existir. Ao invés de sumirem, entretanto, elas permanecem dentro da gente, martelando na nossa cabeça. O efeito é duplo: a gente fica mal por conta delas e se sente ainda pior por saber que não somos fortes nem maduros o suficiente para superá-las de verdade. 

Certa vez, tive um problema com um professor na faculdade. Ocorreu uma discussão na qual somente ele falou - por cerca de vinte minutos seguidos, me calando. Fiquei com medo de retornar na outra aula e faltei duas semanas seguidas. A sensação de fracasso era imensa. Por que eu não conseguia ignorar e relevar? Como pude deixar uma pessoa tão nada a ver me desestabilizar daquela maneira? Eu sentia vergonha só de pensar no assunto. Passei aqueles dias me distraindo, tentando focar em outras coisas. Não adiantou. Eu só superei realmente o que havia acontecido quando pensei muito sobre aquilo, assumi pra mim mesma o que eu estava sentindo, chorei e desabafei. 

Percebi que não ter vergonha de refletir sobre o que me incomoda é muito importante. Não digo apenas mentalizar as coisas de forma abstrata, mas falar mentalmente comigo mesma, sabe? "Estou me sentindo vulnerável demais", "não gostei do que ela fez", "isso me agrediu", "não foi a coisa mais grave do universo, mas não é por isso que vou fingir que tá tudo bem". 

Muitas vezes, fico mal sem ter um motivo aparente. Nesses momentos, eu digo para mim mesma "oi tudo bom? estou mal sem motivo aparente, então quero dar uma choradinha básica e tá tudo bem". Porque, afinal, é muito cansativo ficar buscando o tempo inteiro razão para ter acordado meio pra baixo ou tido vontade de chorar no banho. 

Depois de falar pra mim mesma e assumir que aquilo me fez mal, eu tento externalizar o sentimento. Essa era a pior parte. Sempre foi. A sensação que eu tinha era que eu me enrolaria toda e que ninguém seria capaz de compreender o que eu transmitia. Parece impressão de uma imagem que baixamos do google: as cores nunca vão sair iguais. Mas do que adiantaria desabafar com alguém subestimando a capacidade do ouvinte em ao menos tentar me compreender? 

É importante saber escolher com quem falar sobre determinados assuntos, para evitar desgastes desnecessários. A gente sabe disso. Mas é importante não depositar toda expectativa de compreensão em cima de quem nos ouve. Eu percebi que ninguém era obrigado a me entender perfeitamente, já que nem eu mesma me entendia. Tem dia que desabafo com alguém e falo "mano do céu, isso ficou muito confuso, você não deve ter entendido nada, mas valeu, rapaz, tamo junto". A sensação de alívio ao colocar um incômodo pra fora é imensurável. 

Tem gente que não tem com quem conversar. Tem gente que não consegue falar. Tão importante quanto botar nossas angústias pra fora é saber que nem sempre isso ocorre por meio de uma conversa. Dizem que a arte é uma forma de escapar da realidade, mas eu não concordo totalmente. Pra mim, ela serve como fixadora da realidade. Escrever textos, escutar músicas, destacar trechos inspiradores de livros, pintar um quadro e até mesmo cozinhar um novo prato pode ser capaz de externalizar vários sentimentos que nos incomodam. 

Não importa como vamos por isso pra fora da gente. O importante é por. Tirar. Arrancar. Tomar um gole de café forte sem açúcar e fazer careta. Gritar. Ter consciência de que não estamos loucos, de que não somos fracos ou imaturos. Não ter vergonha de pedir ajuda quando for necessário ou de transportar o que sentimos prum pedaço de papel com aquela caneca bic que a gente não usa desde o ensino médio. 

Tive receio de escrever sobre isso, mas resolvi abraçar a metalinguagem e deixar os pensamentos me conduzirem. Dizem que a arte é uma forma de escapar da realidade. Não foi o que aconteceu comigo agora. 

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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